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Lembranças encobridoras e premissas psicanalíticas

  • Foto do escritor: Rafael Freitas
    Rafael Freitas
  • 3 de fev.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 8 de fev.





O aspecto não completamente resolvido de cada detalhe do ensaio, seu caráter audacioso e antecipatório, acaba atraindo outros detalhes como a sua negação; a inverdade, na qual o ensaio conscientemente se deixa enredar, é o elemento de sua verdade.


T. W. Adorno, Notas de Literatura I.





Introdução


O texto a seguir assume a forma de um ensaio, uma reflexão temática sem pretensões científicas ou acadêmicas, um conjunto de superinterpretações de parte da obra de Sigmund Freud abertamente atravessado por impressões e sentimentos de um leitor psicanalista. São registros de leituras orientadas pela curiosidade sobre o início da prática psicanalítica, um texto organizado como quem tem disponibilidade e pouca vergonha em se entusiasmar com o que já foi feito por outros.


Trata-se de uma reflexão fragmentada, que acentua elementos parciais diante do total, pois considera apenas um texto da obra de S. Freud para afirmar, ou ao menos questionar, algo sobre a psicanálise. Tomei como ponto de partida o texto “Lembranças encobridoras” publicado em 1899 em um periódico médico alemão, depois reunido por S. Freud junto aos "Escritos breves sobre a teoria das neuroses de 1893 a 1906" e na publicação de sua obra completa pertence a um conjunto de textos conhecido como "Primeiras Publicações Psicanalíticas (1893-1899)". Estabeleci como chave da leitura e fio condutor da escrita, o questionamento: quais elementos deste texto dá contorno (ou preenchimento) às premissas psicanalíticas?


Parte I - Título e parágrafos encobridores


O título desse texto de 1899, me causa certa expectativa. Seria “Lembranças Encobridoras” uma simples denominação, uma qualidade comum das lembranças ou uma formulação de mais corpo dando à expressão a envergadura de um conceito, uma síntese de certa dimensão do processo psíquico a ser descrito e analisado por S. Freud? Sigo inclinado à última opção. Começo a leitura me questionando: quais teses iniciais de S. Freud esse título esconde? O que são lembranças encobridoras e o que elas encobrem?


S. Freud inicia o texto com um longo parágrafo, localizando o ponto de partida de sua reflexão e seu tema: parte do tratamento psicanalítico de casos de histeria para destacar as recordações fragmentárias dos primeiros anos da infância. Essa ordem de exposição e reflexão que marca a prática psicanalítica como ponto de partida privilegiado não me parece casual. Logo S. Freud formula duas teses: 1) deve-se atribuir grande importância patogênica às impressões da infância; 2) há uma diferença entre o funcionamento psíquico infantil e adulto.


A tese da importância patogênica pode ser desdobrada na afirmação de que está guardada nas lembranças infantis, em seu mecanismo e funcionamento, uma relação estreita com as neuroses tratadas e estudadas por S. Freud, talvez a sua origem e causa. A tese parte da premissa de que as experiências dos primeiros anos de infância deixam traços em nossa mente. O autor ainda avança nesse sentido e localiza topograficamente esse processo, “deixam traços nas profundezas de nossa mente” (p.289), essa expressão enigmática ganha mais características quando afirma que a maioria dessas impressões não se transformam em recordações acessíveis. Afirmar a possibilidade do gravado, mas não acessível esconde os contornos do conceito de inconsciente. Parece aqui revelada outra agenda de S. Freud escondida sob o título e parágrafos iniciais, pois aceitar seu conceito de lembranças encobridoras é reconhecer a existência do inconsciente.


Nesse momento pergunto: como as lembranças infantis são, ao mesmo tempo, gravadas e omitidas? Seguindo a leitura encontro na lógica o que é importante é retido na memória e acessível à consciência um elemento para diferenciação entre o funcionamento do aparelho psíquico infantil e adulto. Assim como um aparelho psíquico em estado normal e patológico. Tomo aqui emprestado os próprios termos do autor, normal e patológico, suspendendo certo incômodo contemporâneo, uma vez que foram empregados no texto à época, buscando um diálogo com a categoria médica, a princípio sobre a condição histérica, mas que logo revelou-se um projeto mas ambicioso de ampliação do entendimento da condição humana em que o patológico serve de exemplo exagerado para descrever, explicar e redefinir a normalidade.


Se na vida adulta (já após os primeiros anos da infância quando as lembranças são gravadas de forma concatenada) o critério da importância se estabelece como a normalidade para o que é retido e omitido (que não é uma relação absoluta a e noção de importância deve ser problematizada), a amnésia dos primeiros anos da infância, as recordações fragmentadas e por vezes irrelevantes indicam outro funcionamento. E nesse sentido a antítese do funcionamento normal adulto parece caracterizar melhor o estado patológico, que omite justamente o que foi importante. Nos histéricos encontra-se uma amnésia em relação às experiências de instalação de sua doença, importantes por isso ou por si mesmo, tais recordações não são retidas, invertendo a lógica anterior.


A aposta de S. Freud é a aproximação entre a amnésia normal, que afeta os primeiros anos da infância e a amnésia patológica. Dito de outra forma, ao conseguirmos entender os mecanismos da mente nos primeiros anos da infância poderíamos transplantá-los, no sentido de aproveitá-los, para compreender os mecanismos de uma mente doente. Outra agenda parece encoberta nessa construção, do ponto de vista da retórica interessa a S. Freud alimentar a análise das lembranças infantis pelo menos ao ponto de a lógica da importância não ser a única que explica o funcionamento da mente em relação às lembranças. A arte de S. Freud foi apresentar junto a essa problematização das lembranças/amnésia infantil, que perece um território em que a categoria médica está mais aberta a aceitar, o funcionamento da mente adulta em estado patológico, pois aí se oferece uma oportunidade de consideração de suas teses psicanalíticas mais ousadas. O paralelo amnésia infantil e amnésia adulta esconde uma completa revisão do funcionamento da mente, a superação do esquema do retido por importância, da estrutura exclusivamente consciente e até o caráter das lembranças infantis.


Seguindo pela problematização das primeiras recordações infantis, S. Freud destaca seus conteúdos usuais e os divide em dois grupos: aqueles que seguem a lógica da importância e se aproximam do funcionamento posterior adulto, como lembranças de experiências com emoções poderosas como medo, vergonha, dor etc.; e aqueles que contrariam essa lógica pois lembranças banais, irrelevantes, sem qualquer sentido aparente ou conexão imediatamente perceptível. Está no funcionamento específico desse segundo grupo a oportunidade para desenvolvimento das teses psicanalíticas.


S. Freud descreve um mecanismo complexo para explicar a formação desse segundo grupo: a interação de duas forças promove tais lembranças, a primeira encara a importância da experiência como motivo para reter, a segunda resiste e busca impedir que haja qualquer tipo de critério ou prioridade. Com a ressalva de que apesar de opostas não se anulam, classifica as lembranças fragmentadas e sem importância como o resultado da conciliação entre tais forças. Uma conciliação bastante específica: o traço da força de resistência aparece quando a imagem registrada não é a experiência em si, já o traço da força da importância aparece quando apesar na imagem não coincidir com a experiência, o que é retido é selecionado por sua proximidade ou íntima relação.


Essa interação entre forças no mecanismo psíquico da lembrança é denominada por S. Freud por um conflito, o que também me soa como uma denominação especialmente intencional. Guardo essa impressão. O resultado do conflito começa a nos oferecer contornos do conceito que dá título ao texto, pois desloca a retenção da lembrança para uma imagem associada, a importância fica na imagem original, omitida e a imagem associada não possui uma importância ou sentido em si. Mas apenas quando estabelecida a relação com a imagem e experiência original. Parece ser essa a importância patológica das lembranças infantis é também uma premissa para técnica psicanalítica em buscar naquilo omitido a origem dos sintomas histéricos.


Como estabelecer essa relação? O próprio concatenamento lógico provocado pelo texto de S. Freud oferece uma resposta curiosa: o sintoma neurótico constitui-se como elo entre a imagem deslocada e a imagem original; o sintoma parece ser a chave para psicanálise compreender esse complexo mecanismo psíquico e ponto de partida para o paciente retomar o conflito de forças, questionando o sentido do resultado. Seriamos capazes de observar esse mecanismo sem os sintomas neuróticos? Guardo essa impressão e sigo por outra: se nesse conflito tento estabelecer qual dessas forças é fundamental, certa ambiguidade é preservada. Colocado de outro modo, para nossa sobrevivência individual e coletiva é crucial lembrar apenas o importante, lembrar sem critério, omitir apenas o importante ou omitir sem critério? Sobrevivemos com um mecanismo que oscila entre tais posições. E o conflito parece ser o mais importante.


O mecanismo descrito por S. Freud é ainda mais complexo pois a imagem destino do deslocamento, resultado do conflito de forças, assume múltiplas qualidades de relação com a imagem original, em que aquela estabelecida por continuidade espacial ou temporal é apenas uma possibilidade. E a mais simples delas. O que dizer sobre uma lembrança anterior usada para encobrir um evento posterior? Um maravilhoso contra senso!


Começo, portanto, a reunir elementos para respostas provisórias: as lembranças encobertas assumem as características de lembranças fragmentadas, irrelevantes, deslocadas, substitutas, com forte conexão com os primeiros anos da infância e com estados patológicos. O título e os parágrafos iniciais encobrem a afirmação do inconsciente e a ousadia da proposta de S. Freud para o funcionamento da mente, inclusive as "normais". E as premissas psicanalíticas parecem baseadas no funcionamento desses mecanismos para explicar e tratar os sintomas neuróticos.


Referências


ADORNO, Theodor W. “Ensaio como forma”. In: ________ Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003, p. 15-45.


FREUD, Sigmund. “Lembranças encobridoras. In: ________ Obras Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume III, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 289-307.

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