Parte III – As teses psicanalíticas descobertas
- Rafael Freitas
- 3 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.

S. Freud encerra o diálogo, retoma a narrativa e termina seu texto com um desdobramento provocativo de suas teses: temos alguma lembrança infantil ou somente as lembranças derivadas? S. Freud poupa seu paciente em cena mas não seus leitores, quando leva ao extremo as consequências lógicas e clínicas do mecanismo das lembranças encobridoras.
Comecei o ensaio buscando as premissas psicanalíticas, ou seus contornos, nesse único texto da obra de S. Freud, desconfiado que o título já encobria toda a reflexão sobre determinado aspecto fundamental do funcionamento da vida psíquica. Me perguntei: o que são as lembranças encobridoras? O que elas encobrem? E qual sua importância para psicanálise?
O título esconde uma descoberta, a tese de S. Freud de que lembranças podem encobrir forças vitais, passagens críticas de nossa história, impressões fortes e vividas, que ainda tem enfeito sobre nós. Por uma série de mecanismos mentais não conscientes, elas assumem imagens aparentemente sem sentido e importância, mas que guardam um segredo simbólico. A recordação pode ainda representar impressões de uma data posterior, usar um conteúdo infantil para encobrir um conflito adulto, ligados por uma série de elos simbólicos. No caso do estado neurótico, tais lembranças podem guardar a origem e causa de seus sintomas.
Esse intrincado mecanismo mental é apresentado por S. Freud a partir do paralelo entre lembranças dos primeiros anos da infância e nos adultos em estado de neurose. Esse paralelo serve a compreensão da complexidade da vida mental, superação da lógica da importância como critério exclusivo da função memória, reconhecimento do inconsciente como parte da estrutura mental e talvez o caráter das lembranças infantis como exclusivamente encobridoras, resultado operante do processo de conciliação de forças em torno desejos reprimidos. Em sua versão patológica, por mais dolorido que seja, o sintoma neurótico aparece como elo entre as experiências vividas e lembranças encobridoras. O sintoma ressalta o conflito. E a psicanálise como prática é capaz de seguir pela trama da subjetividade individual para transformá-lo.
*Texto produzido e apresentado para conclusão do Ciclo I do Curso de Formação em Psicanálise no Centro de Estudos Psicanalíticos - CEP no primeiro semestre de 2023.
Referências
FREUD, Sigmund. “Lembranças encobridoras”. In: ________ Obras Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume III, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 289-307.


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