Parte II - O paciente levemente neurótico
- Rafael Freitas
- 3 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.

Como um artifício ao mesmo tempo retórico e de reforço da prática clínica como ponto de partida privilegiado de suas reflexões, S. Freud traz um ilustre paciente e um caso desse mecanismo psíquico em ação. Assim apresenta a amplitude (para além do princípio de proximidade entre os objetos lembrados) e complexidade (múltiplas representações e sentidos sobrepostos), que o processo de deslocamento, recalcamento e substituição pode alcançar. Com esses objetivos, o texto muda de gênero para um diálogo entre paciente e analista, em que o paciente levemente neurótico assume a narrativa e até a síntese psicanalítica, quase como uma autoanálise. Aceito o jogo.
O tema do relato analítico é uma lembrança infantil específica, recordada com nitidez, que o paciente diz ter certeza de não ser uma lembrança sugerida pelos pais ou mesmo uma lembrança moderadamente deslocada, em que a proximidade dos fragmentos completa a conexão da importância infantil. Essa lembrança não possui nenhum sentido aparente, trata-se de uma longa cena, detalhada e irrelevante.
A cena é construída como um modelo analítico, exagerado na coesão e potencial simbólico de seus elementos. Mais relevante do que sua retomada em detalhes é a pergunta que o próprio paciente formula após sua descrição: “o que há nessa ocorrência para justificar o dispêndio de memória que ela me acarretou?” (p.297). Ele não consegue estabelecer relações entre essa cena e outras de sua infância, e destaca certo estranhamento em suas características exageradas, quase oníricas. Apesar do domínio da narrativa e até do vocabulário psicanalítico, o paciente demonstra certa angústia pela insistente lembrança e sua resistência em revelar-se.
A chave que permitiu a solução e interpretação foi outra pergunta, dessa vez colocada pela figura do analista: “desde quando se ocupava com essa recordação? Desde a infância ou emergiu em uma ocasião específica?” (p.297). S. Freud destaca um movimento da técnica psicanalítica como facilitador para recuperação das conexões perdidas ou mesmo da interpretação de seus elementos simbólicos. Há uma constatação impressionista do paciente imediatamente após o questionamento feito pelo analista, que essa lembrança de fato nunca ocorreu na infância, que era uma fabricação síntese simbólica de diversos momentos, experiências e sentimentos. Algo que voltará no final do diálogo como dúvida. A lembrança é autêntica ou fabricada?, se pergunta o paciente. E completo para sequência interpretativa do texto: isso importa para as teses de S. Freud?
A lembrança interpretada revela desejos recalcados, um combinado de fantasias de conforto material e sexual de defloramento em uma única e nova representação. A lembrança fabricada ainda se vale de elementos autênticos da experiência infantil para ter seu desenho completo, como pessoas e lugares. O conteúdo e objetos da lembrança não possuíam um sentido em si e nem importância para aquele momento da infância, mas representavam desejos outros, sobrepostos e disfarçados, conectados com outros momentos da vida do paciente.
S. Freud assim coloca: “Uma recordação como essa, cujo valor reside no fato de representar na memória impressões e pensamentos de uma data posterior cujo conteúdo está ligado a ela por elos simbólicos ou semelhantes, pode perfeitamente ser chamada de lembranças encobridoras.” (p.301). Ela encobre as forças motivacionais de sua retenção. Algo que já acontecia nas lembranças levemente deslocadas e associativas, mas quando um elemento do passado, uma imagem infantil condensa impressões e sentimentos de uma data posterior, de pontos críticos da vida adulta, ao ponto de fantasias de tempos distintos encontrarem em uma única imagem sua representação, o mecanismo é exposto em seu funcionamento máximo, em sua beleza e complexidade.
Ao final do diálogo a palavra inconsciente aparece pela primeira vez no texto, ela rondava a cena, mas ainda não pronunciada, senão nesse momento pelos questionamentos do paciente levemente neurótico. O analista define provisoriamente o termo inconsciente como um prolongamento de pensamentos conscientes, em que se guarda “a parte mais sedutora” (p.302), que no caso descrito eram os desejos sexuais. A autoanálise do paciente ainda problematiza essa relação: a imaginação de como poderia ter sido a satisfação do desejo sexual e seus desdobramentos prazerosos cria uma imagem para sua satisfação parcial. Uma versão condicional e consciente do desejo. A sua satisfação completa pela agressão sexual fica guardada no inconsciente, que passa ser a forma possível de existir na mente, inacessível a consciência e ao juízo. Contudo, esse mecanismo é dinâmico e o conflito de forças é constante para manutenção ou modificação dessa conciliação. Essa imagem inconsciente encontra então em sua associação figurativa na cena infantil uma forma de emergir ao consciente.
Fico espantado com a sofisticação e força do mecanismo que produz tais lembranças, especialmente pois opera distante de nossa percepção interna consciente, num primeiro momento penso: como somos capazes de nos enganar?, mas enganoso não expressa a qualidade desse movimento, que tem sua dimensão de proteção, sobrevivemos assim, preservamos nossos desejos em desajuste com nosso juízo assim. No limite somos, em nossa mais íntima constituição, o conjunto de nossos desejos, mais do que nossos juízos. E nesse sentido outra questão me ocorre: se os sintomas histéricos podem surgir do conflito entre desejo e juízo, e das forças de reter ou omitir sua conciliação, seria o tratamento psicanalítico uma reordenação de juízo? Guardo mais uma vez o pensamento.
Ao final do diálogo retorna a questão da autenticidade da cena. Como seguir entendendo essa lembrança como autêntica se um mecanismo dessa sofisticação poderia facilmente ter fantasiado tudo? O analista aparece para defender a autenticidade, pois o mecanismo descrito precisa e parece ter utilizado de matéria-prima dos fragmentos experienciados naquele período da infância, sem deixar de destacar a falseabilidade como parte fundamental de seu funcionamento.
Tenho duas impressões sobre essa defesa do analista da autenticidade parcial da lembrança: 1) é uma forma de reforçar a capacidade desse mecanismo de mobilizar elementos reais/vividos e outros fantasiosos/imaginados para construção de seus símbolos; 2) há uma preocupação com o tratamento do paciente, estaria ele preparado para a constatação de que suas recordações infantis são completas fantasias? Aqui me permito um breve mergulho na cena clínica.
Caberia ao analista revelar o funcionamento extremo desse mecanismo se o paciente parece incomodado com essa possibilidade? Desenrolar os fios das lembranças encobridoras o coloca de frente com desejos reprimidos, questionar a autenticidade da lembrança infantil por completo não abriria espaço para o paciente duvidar da autenticidade dos desejos? Distanciando-se deles invés de encará-los? Ou ainda, um leve estado neurótico, uma angústia pela insistente lembrança sem sentido não poderia ser agravada pelo questionamento de seus marcos reais e imaginários? Me parece que o tratamento psicanalítico permite reconhecer as forças dos desejos e reordená-los para diminuição da angústia, ou ao menos para suportá-la. Uma oportunidade de refazer sua narrativa da própria história lembrando que as forças seguem em funcionamento. E assim a autenticidade pouco importa, quando o sentido é desvelado, as representações problematizadas e interpretadas, a cena se desfaz, a lembrança se desfaz. Sobram-se só os desejos.
O artifício textual do diálogo entre um analista e paciente, em sua condição que lhe permite elaborações precisas e em completa sintonia com a proposta psicanalítica, funciona bem no sentido retórico. S. Freud demonstra uma concatenação de ideias para caracterizar um processo complexo da vida mental, resultado de uma combinação de deslocamentos, substituições e projeções. Um caminho tão abstrato e com diversas combinações que um exemplo exagerado e um diálogo me parece uma escolha acertada para sua primeira descrição. S. Freud foi generoso com seu leitor.
Referências
FREUD, Sigmund. “Lembranças encobridoras”. In: ________ Obras Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume III, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 289-307.


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